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<aside> 💡 Pode algo ser belo para qualquer propósito a não ser aquele para o qual é belo que seja usado? (sócrates)
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O Design surge com o propósito de colocar ordem no mundo industrial, no então período que corresponde à infância da sociedade de consumo (Alô Bauman, inclusive recomendo) em meados dos séculos dezoito e dezenove, com o surgimento do sistema de fábricas. Deste modo, aparecem profissionais como artistas, arquitetos, reformadores, museólogos, instituiçōes de ensino... com a intenção de melhorar o gosto da população e a configuração das mercadorias que lhes eram oferecidas. Assim, por volta de 1850 e 1930, geraçōes de novos profissionais dedicaram seus esforços à imensa tarefa de conformar a estrutura e a aparência dos artefatos de modo que ficassem mais atraentes e eficientes. Seu lema era adequação dos objetos ao seu propósito "Fitness for Purpose", o que mais adiante, na década de 30, popularizou-se o mote mais conhecido entre os então apelidados "Designers": A Forma segue a Função.
Este conceito perpetuou os embates entre designers até a década de 60, em âmbito internacional, com o surgimento da contra-cultura. Já no Brasil, permaneceu dominante até a década de 80, apesar dos esforços de alguns; e até hoje perdura o vício entre designers brasileiros de falar em "funcionalidade". Para realizar o ideal de adequação ao propósito, é preciso ter de antemão uma noção mais ou menos coerente de que propósito se quer cumprir. E o mundo mudou muito da década de 60 para hoje, o paradigma de fabricação industrial, por exemplo, hoje as empresas buscam segmentação... e o mundo digital, quase não existiam computadores antes, e também atenção às questōes ambientais.
O Designer Norte-Americano Victor Papanek publicou em 1971 o "Design para o mundo real", que provocava os designers a sairem de seus escritórios envidraçados e do ar-condicionado e ver um mundo de fome e miséria, de uma guerra armamentista, ele diz:
<aside> 💡 Em termos semânticos, todas essas afirmaçōes desde Horatio Greenough (escultor precursor sobre as relaçōes entre forma e função dos edifícios), até a Bauhaus alemã são desprovidas de sentido. A concepção de que aquilo que funciona bem terá necessariamente uma boa aparência serviu de desculpa débil para todo o mobiliário e os utensílios estéreis, com cara hospitalar, dos anos 1920 e 1930.
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À medida que o mundo virtual aumenta em abrangência, a realidade parece desmanchar-se no ar. Em uma palavra, o "imaterial" passou a ser o fator decisivo em quase todos os domínios, o "mundo real" não deixou de existir, tão pouco, os problemas apresentados por Papanek. Diante do tamanho do esforço necessário para dimensionar um problema em toda sua complexidade, qualquer um pode se sentir pequeno. É bom que seja assim, pois os designers precisam se libertar do legado profissional que os estimula a trabalharem isoladamente, de modo autoral, como se um bom designer fosse capaz a resolver tudo sozinho.
O mundo atual é um sistema de redes interligados, e a maior redes de todas é a informação. Ignorar esse fato, ou posicionar-se de modo reativo, serve apenas para minar qualquer possibilidade de mudar o sistema, pois construimos um mundo em que quase nada existe fora do domínio do artificial. Poucos anos atrás um comercial de banco colocava muito bem o dilema da contemporaneidade ao afirmar: "Nos anos 60 queriam derrubar o sistema. Hoje, o sistema cai por um minuto e a gente fica revoltado".
Ainda sobre "Forma" e "Funcionalidade", a forma como o design pós-industrial encarou o ofício e que reverbera até hoje, podemos visualizar de forma física quando, por exemplo, temos costume de dizer que uma roupa é elegante, que um carro é luxuoso, que um prédio é imponente. Nisso estamos atribuindo valores conceituais ao objeto que não derivam propriamente deles (os objetos), mas de nosso repertório cultural. Isso pode ser percebido também sobre como as roupas deixam de ser "estilosas" e passam a ser "cafonas" com o tempo. Já condiçōes táteis, como o cabo de um martelo encaixar bem na mão, que um ambiente é aconchegante... são coisas que geralmente permanecem estáveis no tempo e podem ser medidas e avaliadas, de modo mais ou menos acertado, em um laboratório de ergonomia.
Ao longo do período modernista, prevaleceu a ideia, inteiramente desprovida de fundamentos, de que ornamento se contropōe a funcionalidade. Mas de qual modo as formas expressão significado? O próprio conceito de "forma" é difícil e possui suas variaçōes de entendimento em diferentes línguas. Forma abrange pelo menos três aspectos interligados, que possuem diferenças importantes entre si:
Os três aspectos se entrelaçam e formam um conjunto inseparável e que não pode ser apreciado plenamente de um único ponto de vista. Imaginemos um artefato qualquer. Agora, como se faz para transmitir a compreensão perfeita de sua forma apenas pela visão?
Forma não é quantum estável, eterno e inalterável desde sempre, mas o fruto de uma transformação. Quando se compreende a lógica segundo a qual as formas são constituídas, compreende-se também que elas são passíveis de mudança e de adquirirem novos significados; como foi o caso dos Arcos da Lapa que, originalmente foram projetados como aqueduto, e que hoje servem como peças da composição da cidade, artefatos turísticos, sua forma original foi modificada com o tempo.
<aside> 💡 Talvez a imobilidade das coisas ao nosso redor lhes seja imposta pela nossa certeza de que tais coisas são elas mesmas e não outras, pela imobilidade de nosso pensamento em relação a elas (Marcel Proust, Em busca do Tempo Perdido, 1913)
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Para entender melhor, vamos explicar alguns conceitos. Artefato é um objeto feito pela incidência da ação humana sobre matéria-prima: em outras palavras, por meio da fabricação. Uma montanha, uma pedra, uma árvore são objetos, mas não artefatos. Sua raiz etimológica está no latim "Arte factus" (Feito com Arte), e ela está na origem do termo "Artificial". Ou seja, tudo aquilo que não é natural.
A existência de qualquer artefato decorre dentro de um ciclo de vida que comporta desde sua criação até sua destruição. Quanto mais tempo ele consegue resistir - ou seja, manter-se íntegro e reconhecível - maior será a chance de incidirem sobre ele mudanças de uso e de entorno. Alguns artefatos, como os arcos da lapa, sobrevivem por muito mais tempo do que seus criadores e fabricantes e estão sujeitos, portanto, à atribuição de significados por gerações sucessivas de pessoas usuárias, cujas opiniões e juízos podem variar imensamente. Quem observa hoje o velho monumento e o aprecia como patrimônio histórico não compartilha quase nada com os olhares lançados sobre ele no momento de sua inauguração como aqueduto.
Hoje, mais do que nunca, na chamada "Era da Informação", é praticamente impossível chegar a qualquer objeto sem passar antes pelo repertório - ou seja, sem alguma noção dos discursos que moldam seu significado -, e uma ideia preconcebida de como será sua experiência. Para exemplificar melhor, ao assistir a um filme, geralmente tendemos a procurar informações prévias (trailer, gênero, resumos). A experiência, no entanto, é um dos fatores mais determinantes do significado, porque a depender do repertório que cada pessoa traz, a relação de entender o artefato pode ser diferente. O tempo também é um fator importante. Um bom exemplo foram as HQ's do Homem-Aranha lançadas em 1965 e vendidas a 2 centavos, nos EUA, e que hoje valem até 100 mil dólares.
<aside> 💡 Quando se discute o significado dos artefatos, é comum recorrer à "experiência do usuário" como uma espécie de prova dos nove. Até certo ponto, a experiência pode ser observada em situaçōes controladas, testadas em laboratórios e quantificadas em dados e tabelas, o que é sempre reconfortante para as pessoas que buscam certezas. Acontece que nada que valha a pena ser estudado é tão simples assim
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Não existe função; existem funções. Temos o mau hábito de usar a palavra "função" de modo impreciso, para abranger conceitos e valores bastante distintos entre si. O que é mais comum e problemático, é empregar o termo "funcional" para descrever a aparência do artefato. Quando se fala genericamente na "função" de um artefato, gera-se uma confusão nefasta entre o que se pode fazer com ele - ou seja, seus usos -, e o que ele pode significar. Um relógio de pulso, por exemplo, sua função é cronometrar a passagem do tempo, estando no pulso, de preferência com conforto e segurança. Mas há diferença entre um Rolex, por exemplo, e qualquer outro relógio? Um cronometra melhor que outro? O Rolex é desejado não por ser melhor como relógio, mas por aquilo que ele significa independentemente de seu funcionamento e operacionalidade. Ter um Rolex é sinal de prestígio, de status, de pertencimento a uma elite; sua função não se limita à cronometrar, sua verdadeira função é psicológica. Isso ocorre com inúmeros produtos e serviços e a isso se dá o nome de "valor agregado".
Os significados não são estáveis, mas sujeitos à transformação contínua. Por outro lado, foi sugerido que há um aspecto concreto dos artefatos que se mantém mais ou menos constante. Parafraseando Flusser: As ideias geram objetos, e estes objetos permanecem no mundo mesmo depois que as ideias mudam
O processo de significação dos artefatos, ou seus significados ao longo de um ciclo de vida, é determinado por quatro fatores:
Aquilo que o campo do design costuma descrever como "Produto" corresponde a uma fração apenas da vida dos artefatos: o período de vida útil que vai da fabricação até o descarte. Trata-se de uma visão bastante restrita, pois o mesmo artefato pode sobreviver materialmente por muito tempo após ser inutilizado. Analogamente, os economistas usam o termo "Mercadoria", o qual descreve o artefato unicamente durante o período curtíssimo em que está à venda. Mas é preciso considerar o pós-uso dentro da cadeia de produção, pensar no descarte, em novas formas de uso (reciclar) e colocar no escopo o campo ambiental, abrindo um novo leque para a área do design atual. Sabendo que os artefatos são expressōes concretas do pensamento e do comportamento que nos regem, o conjunto de todos os artefatos que produzimos reflete o estado atual de nossa cultura. Por isso, precisamos levantar questōes como "cultura material". O Design for Disassembly (Design para o desmonte), é um bom exemplo disso. Usado em alguns setores da indústria automobilística, permite que a integridade do produto se mantenha, enquanto peças podem ser substituídas. O processo é construído com essa ideia.
O design é um campo de possibilidades imensas no mundo complexo em que vivemos. Por ser uma área voltada, historicamente, para o planejamento de interfaces e para a otimização de interstícios, ela tende a se ampliar à medida que o sistema se torna mais complexo e à medida que aumenta, por conseguinte, o número de instâncias de inter-relação entre suas partes. O design. tende ao infinito - ou sejam a dialogar em algum nível com quase todos os outros campos de conhecimento. Em seu sentido mais elevado e ambicioso, o design deve ser concebido como um campo ampliado que se abre para diversas outras áreas, algumas mais próximas, outras mais distantes. Nesse sentido, o designer pode sim ser artista, ou artesão, arquiteto, engenheiro, estilista, marqueteiro, publicitário ou uma infinidade de outras coisas. A grande importância do design reside, hoje, precisamente em sua capacidade de construir pontes e forjar relaçōes num mundo cada vez mais esfacelado pela especialização e fragmentação de saberes.